Para muitos egiptólogos, o reinado de Amen-hotep III (c. 1390-
-1353 a. C.) marca o apogeu da civilização egípcia, bem patente
num ambiente pacífico de cosmopolitismo e de amplas relações
comerciais e diplomáticas com o estrangeiro, e o florescimento
da arte, tanto na arquitetura como na estatuária e baixo-relevo,
neste caso testemunhado nas paredes de templos e de túmulos.
As obras escultóricas, quer as de grande porte quer as pequenas
produções em estatuetas do rei e de muitos particulares, provam
a excelência do refinado e delicado gosto estético dos artistas da
época, sendo um belo exemplo as representações do jovem faraó
na fase adolescente, restando lamentavelmente em muitos casos
apenas a cabeça real, com traços típicos nos olhos e nos lábios.
E são alguns desses exemplos que aqui se apresentam, evocando
o deliberado intento de celebrar a eterna juvenilização do rei, até
mesmo em imagens mais tardias do seu feliz reinado, a começar
pelas duas imagens de cima, colocadas lado a lado, a do Museu
Calouste Gulbenkian e a do Museu do Louvre, e, para comparar
novamente, a do Museu do Louvre e a do Museu de Cleveland.
Mas eis que no terceiro grupo nos aparece uma horrorosa cabeça
que pretende representar o venturoso monarca, tendo ao seu lado
a imagem de Amen-hotep III, com os seus traços inconfundíveis,
numa cabeça fraturada do Metropolitan Museum of Art de Nova
Iorque, que permite uma esclarecedora comparação, e em baixo
uma esfinge de faiança de Amen-hotep III com o rosto juvenil.
Das seis cabeças do conhecido rei egípcio da XVIII dinastia aqui
mostradas há uma que evidentemente destoa, que é a quinta vista
no terceiro bloco de imagens: trata-se de uma imitação grotesca e
desajeitada de um falsificador que a procurou impingir a incautos
colecionadores, e por isso ela esteve à venda na «Renascimento»,
uma firma leiloeira de Lisboa, e a Polícia Judiciária confiscou-a.
O egiptólogo Ronaldo Gurgel Pereira, que agora ensina na FCSH
da Universidade Nova de Lisboa, desde que venceu um concurso
para professor de História Antiga ali realizado em 2025, elaborou
um relatório sobre os artefactos egípcios à venda na mencionada
leiloeira, e disse que a hedionda e imbecil cabeça era autêntica!!!
- apesar do parecer contrário do egiptólogo Zahi Hauass e o meu.
Donde se conclui que não bastará conhecer a gramática da língua
egípcia e saber redigir no quadro com desenvoltura a bela escrita
hieroglífica - é preciso ter noções basilares sobre a história social
e política, a cultura e a arte do antigo Egito para poder dar aulas e
dar pareceres sérios, ao invés do que o arqueólogo-egiptólogo da
FCSH - NOVA fez em relação à horrenda cabeça aqui publicada.
