O príncipe Khaemuaset foi uma das principais personagens
do longo reinado de seu pai, o célebre faraó Ramsés II, que
reinou entre 1279 e 1213 a. C., tendo falecido com mais de
90 anos de idade, muito depois da morte de Khaemuaset, o
promissor e muito ativo príncipe herdeiro, que foi também
sumo sacerdote do deus Ptah, em Mênfis, com a referência
ao título de sacerdote sem em diversas estatuetas funerárias
de acordo com as suas elevadas funções no clero de Sokar.
As imagens publicadas referem-se à capa do belo catálogo
de Jean-Luc Bovot dedicado às estatuetas funerárias de reis
e príncipes que se encontram no Museu do Louvre, Paris, e
que datam do Império Novo à Época Baixa (da XVIII até à
XXVI dinastia, não sendo conhecidas estatuetas funerárias
de dinastias posteriores pertencentes a faraós) mostrando a
imagem à direita uma estatueta que apresenta na inscrição
frontal o nome de um Khaemuaset mas não é Khaemuaset.
O profícuo egiptólogo francês escolheu para ilustrar a capa
do seu álbum a imagem de um capataz de Khaemuaset, em
diorite verde, que está no Museu do Louvre, mostrando um
chauabti que não exibe a tradicional pose mumiforme, mas
sim o traje dos vivos, tendo uma inscrição frontal onde está
gravado o título de filho do rei (sa-nesu) e sacerdote sem, o
que o identifica com o culto de Sokar, mas Ronaldo Gurgel
garante que se trata de um homónimo, filho de Ramsés III.
Trata-se de uma falsificação, que esteve à venda numa loja
leiloeira de Lisboa, integrada num diversificado lote que a
Polícia Judiciária veio a confiscar, tendo posteriormente as
seis melhores estatuetas funerárias em faiança do conjunto
sido adquiridas pela Embaixada do Egito em Lisboa, mas a
estatueta acima reproduzida (à direita) foi recusada porque
foi considerada falsa pelo famoso egiptólogo Zahi Hawass,
confirmando assim o que eu tinha dito antes num parecer.
Mas o egiptólogo brasileiro Ronaldo Gurgel Pereira, que é
docente na FCSH (Universidade Nova de Lisboa), também
elaborou um parecer, onde diz que este desajeitado e fruste
chauabti é autêntico! E chegou a reproduzir os hieróglifos,
que ele diz estarem dentro de «uma cartela frontal» (?!), só
que comete um erro surpreendente trocando o signo st pelo
signo unilítero s, alterando assim o nome do deus Osíris, o
que é deveras estranho para quem escreveu uma gramática.
Ora, o chauabti falso, feito para enganar possíveis clientes,
e também certos egiptólogos, mostra a falta de «jeito» por
parte do falsificador na iconografia genérica, como o colar
e o texto hieroglífico, onde há signos desajeitados, o que é
chocante numa estatueta funerária de um príncipe, mas de
facto bastaria olhar para esta inscrição para perceber logo
que se trata de uma falcatrua - e, no entanto, o egiptólogo
Ronaldo Gurgel Pereira fala em «caligrafia impecável»!!!