Um texto redigido por um «jornalista» da CNN foi publicado
na internet (onde cabe um pouco de tudo e onde a civilização
egípcia é amiúde boçalmente maltratada), com o interpelante
título de «Os Antigos egípcios sacrificavam servos quando os
reis morriam, revelam análises forenses»... E por aqui ficou o
anónimo, impreparado e inefável redator do título, noticiando
afinal o que já se sabia há mais de cem anos, desde o trabalho
inicial de escavação liderado pelo arqueólogo Flinders Petrie,
seguindo-se depois vários trabalhos arqueológicos de outros.
Esta «notícia» dada pela CNN procura cativar o interesse dos
leitores com o título dramático, e quase escabroso, uma típica
«técnica» de certa comunicação social, que neste caso tomou
como argumento básico a recente análise forense dos «restos
humanos encontrados em redor dos complexos funerários de
reis do Antigo Egito»... Faltou dizer que esses túmulos reais
são da I dinastia, datados de entre 3000 e 2800 a.C., quando,
como se demonstrou, alguns servos eram sacrificados, tendo
o rei Kaa acabado com isso (mas continuou noutros países).
Faltou indicar as datas nesse texto badalhoco e desleixado (as
datas!!!), porque assim há o risco de os leitores pensarem que
tal prática sacrificial típica de uma cultura de raízes africanas
seria uma caraterística de toda uma civilização com a duração
de três mil anos, ideia torpe e crassa, ainda por cima agravada
com a publicação da imagem que se vê em cima, com o faraó
Seti I venerando o deus Osíris no templo-cenotáfio de Abido,
que é de 1290 a.C. e fica na margem ocidental do Nilo (e não
«no leste do Egito», como o tosco redator da CNN escreveu),
podiam escolher uma imagem como a segunda que aqui está.
Ou seja, a longa história do antigo Egito, de mais de três mil
anos, fica desvirtuada na aviltante e desnorteada «notícia», e
como a cronologia foi desprezada a duração dessa prática de
dois séculos é estendida, de modo indecente e néscio, a mais
de dois mil anos de história... Eis o resultado da deficiente e
delusa leitura do estudo da investigadora Roselyn Campbell,
da Universidade de Purdue, Indiana (nos Estados Unidos), a
qual observou vários crânios achados nas sepulturas datadas
da I dinastia (e não das trinta dinastias do Egito faraónico),
e o redator podia ter estudado melhor o tema que publicou.
Antes de se redigir uma informação para os leitores, seja nos
jornais, na televisão, na rádio ou na internet, convém ter uma
preparação básica sobre o assunto que está a ser tratado, e ao
menos possuir uma elementar cultura geral, e, acima de tudo,
um imenso respeito pelos leitores. Ora para isto é necessário
entender e ler com todo o cuidado as fontes de informação, e
neste caso a CNN americana que apresenta a síntese do texto
de Roselyn Campbell até refere o ano 3000 a. C.! Depois não
mais se fizeram sacrifícios humanos, acreditando os defuntos
que os deuses tratariam deles, como se vê na última imagem.



























