Durante as férias chegou-nos a triste notícia do falecimento do
Professor Doutor José Augusto Ramos, um consagrado e muito
respeitado professor catedrático emérito jubilado, da Faculdade
de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi o diretor da área
de História e diretor do Centro de História em fase atribulada e
dramática daquele Centro que ele (com outros) abnegadamente
conseguiu salvar, e ainda presidente do Conselho Científico da
Faculdade de Letras de Lisboa, e diretor do Instituto Oriental.
Foi um exímio mestre de tudo o que é história, cultura e língua
das civilizações pré-clássicas, dominando o acádio, o aramaico
mais o hebraico e o ugarítico, entre outras, e os seus enraizados
conhecimentos de grego e de latim, vindos dos seus estudos de
vivências franciscanas, nunca esquecidas, facultaram-lhe, mais
que a qualquer outro, fazer a ponte entre o mundo clássico e o
mundo pré-clássico - na verdade, ele foi sempre, em suma, um
sumo pontífice, um fazedor de pontes, um humanista preclaro.
No que pessoalmente me dirá respeito, o convívio no Instituto
Oriental da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (a
partir de 1990) proporcionou fecundas trocas de ideias, e para
mim uma gratificante aprendizagem do mundo mesopotâmico
e do mundo bíblico, sendo ele um interessadíssimo indagador
da civilização do antigo Egito, que ele conhecia perfeitamente
e sabia o essencial da antiga língua egípcia, e sobretudo todos
os meandros e aspetos relacionados com a religião e a maet.
E o velho Ford Focus que o diga, a lembrar as longas viagens
de carro para a Gráfica de Coimbra, ida e volta, para a revisão
das provas finais da revista Cadmo, da qual ele era o diretor, e
as viagens ao Porto para atividades académicas, em encontros
científicos com temas de interesse comum, em especial sobre
o antigo Egito - uma vez tentei que ele desenhasse um abutre,
um hieróglifo correspondente à letra a (ou alef), mas saiu-lhe
um peru, motivo forte para risadas, e ainda hoje o ouço a rir.
Estas imagens selecionadas que aqui o recordam relacionam-se
com o IV Congresso Ibérico de Egiptologia, em Lisboa, e ainda
com diversas atividades académicas da Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa, em momentos das provas académicas
do signatário, na segunda e na terceira por altura das provas de
doutoramento, em 1998, a quarta nas provas de agregação, em
2008, tendo José Augusto Ramos integrado ambos os júris, e a
última no doutoramento do egiptólogo Telo Ferreira Canhão.