terça-feira, 21 de abril de 2026

Em Guiza, há 60 anos

 

Na viagem ao Egito que teve lugar no mês de fevereiro, num
percurso clássico que nos levou de Alexandria a Abu Simbel
e incluiu o tradicional cruzeiro no rio Nilo, conhecemos uma
simpática companheira de viagem, Ana Ramalhete, que tinha
estado no Egito há mais de 60 anos, prometendo então enviar 
uma fotografia antiga dessa jornada, para ela inesquecível.

E aqui está essa velha fotografia tirada no famoso planalto de
Guiza, vendo-se ao longe a grande pirâmide do rei Khufu (da
IV dinastia, conhecido também pelo seu nome helenizado de
Queóps), tendo à esquerda da imagem a cabeça da Esfinge e 
o templo do vale de Khafré (Quéfren), com a pequena Ana,
então com 8 anos, num alto dromedário, com os seus pais.

No velho Museu Egípcio

 


Na última estadia no Egito, enquanto um grupo de viajantes
partia e outro chegava, houve a rara oportunidade de passar
um dia inteiro no Grande Museu Egípcio, na zona de Guiza,
e outro dia no velho Museu Egípcio do Cairo, em Tahrir, ali
bem no centro tradicional da grande cidade, duas visitas que
se complementaram e enriqueceram deveras o egiptólogo.

Percorrendo com vagar as várias salas e corredores do velho
museu cairota dedicado à civilização do antigo Egito, e com 
o caderno de apontamentos à mão, recordaram-se as peças e
artefactos mais conhecidos (como a perturbadora estatuária
de Akhenaton na sala dos vestígios amarnianos), as estátuas
achadas em Tânis (da XXI dinastia) e o rei Amen-hotep III.

De Tânis é oriunda uma peanha inscrita, em granito escuro,
tendo em cima o babuíno sagrado do deus Tot (que se vê na
imagem de cima), com um longo texto em linhas verticais e
horizontais onde consta o nome do rei Pasebakhaenniut que 
em grego é Psusennes, chamando ainda a atenção a estátua
de Amen-hotep III, idoso e pançudo, anunciando Amarna.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Bumerangues egípcios

 

Numa das galerias destinadas ao espólio do faraó Tutankamon
no Grande Museu Egípcio, na secção dedicada a artefactos de
âmbito militar e cinegético, encontra-se exposto um conjunto
de bumerangues feitos de madeira, e alguns deles decorados.

A abundância de tais objetos e a sua aparente semelhança com
os bumerangues usados pelos aborígenes australianos acabaria
por levar uma certa viajante a concluir que os Egípcios antigos 
tinham chegado à Austrália, tendo sido impossível contestá-la.

Outra conclusão de outra viajante de um anterior grupo foi que
os Maias tinham estado no Egito, atendendo às «semelhanças»
entre as pirâmides da América Central e as do Egito faraónico,
garantindo que o Homo sapiens tinha chegado a todo o lado!

Situações estranhas e anómalas como estas ocorrem por vezes
no decurso das viagens ao Egito, mas felizmente são raras, e a
solução para quem não aceita explicações ou esclarecimentos 
sérios e científicos é deixar tudo na mesma, nada há a fazer...

Coluna de Merenptah no GEM

 

No amplo átrio do Grande Museu Egípcio, que os anteriores
grupos de viajantes do país do Nilo têm visitado, encontra-se
uma coluna de granito rosa inscrita, celebrando as vitórias do
rei Merenptah (1213-1203 a.C.) contra os inimigos do Egito.

Mas esta coluna acaba por passar despercebida aos visitantes
do GEM porque perto ergue-se uma colossal estátua do faraó
Ramsés II (pai de Merenptah), e no entanto ela proporciona a
leitura de dados interessantes sobre o final da XIX dinastia.

A legenda que acompanha a coluna informa que nela se pode
ver a deusa Anat a dar ao rei uma arma contra os inimigos, e
omite a presença do deus Amon e outras divindades além de
não traduzir o essencial dos textos que lá foram gravados.

Claro que as legendas não podem dizer tudo, por isso aqui se
traduz parte do texto da parte inferior da coluna, onde consta
na primeira linha a captura de milhares de inimigos, no meio
alude-se a espólio variado, incluindo cavalos (44 animais), e
aos bois e burros confiscados, em baixo consta o número de
espadas (9.268), de arcos (6.860) e de flechas (128.660).

Na imagem inferior vê-se a base da coluna, a qual foi feita
em calcário, onde o texto mostra o nome de Hórus (que era
o primeiro nome do rei em geral inscrito dentro do serekh): 
Hor ka nakht hai em Maet, ou seja, Hórus Touro Poderoso,
que rejubila em Maet - assim se aludia ao faraó Merenptah.

Dedicatórias funerárias no GEM

 

Percorrendo com todo o vagar e com deleite os amplos espaços 
do Grande Museu Egípcio, tempo não faltará para a descoberta 
de objetos que habitualmente passam despercebidos ao viajante
mais afoito, mas que podem facultar compensadoras leituras ao
egiptólogo como aliciante desafio e como útil aprendizagem.

Foi o que sucedeu durante a última estada no Egito, passando o
tempo à procura de novidades, rematando com a observação de
duas estelas fúnebres do Império Médio: a da esquerda, erigida
para dois irmãos, Senankh e Minnefer, filhos de Ptahuerbau, a 
da direita feita para o governador da cidade (Uaset) Simontu.

 Tradução da estela da esquerda:
Oferta feita pelo rei (hotep-di-nesu) a Osíris, líder dos (que está
à frente dos) Ocidentais (defuntos), e senhor de Abido, para que 
ele conceda invocações-oferendas em pão, cerveja, carne de boi
e de aves, para o grande mordomo (imirá-per uer) Senankh, que
foi feito por (filho de) Ptahuerbau.

Oferta feita pelo rei (hotep-di-nesu) a Osíris, líder dos (que está
à frente dos) Ocidentais (defuntos), e senhor de Abido, para que 
ele conceda invocações-oferendas em pão, cerveja, carne de boi
e de aves, para o conhecido do rei (rekh-nesu) Minnefer, que foi
feito por (filho de) Ptahuerbau.

Tradução da estela da direita:
Oferta feita pelo rei (hotep-di-nesu) a Osíris, líder dos (que está
à frente dos) Ocidentais (os defuntos), deus grande (netjer aá) e
senhor de Abido, e Uepuauet, senhor da terra sagrada (ta djeser,
a necrópole), para que eles concedam invocações-oferendas em
pão, cerveja, carne de boi e de aves, roupa, incenso, tudo coisas
boas e puras... impregnadas de divino, para o ka do membro da
elite, governador (hatiá) da cidade, Simontu.

Quer os dois irmãos em cima, quer o funcionário em baixo, têm
à sua frente altares recheados com vitualhas, estando Simontu a 
ser venerado por seu filho Senebef, que era sacerdote de Amon.