Entre os muitos objetos expostos na vasta galeria do Grande
Museu Egípcio dedicada às crenças divinas e funerárias está
um conjunto de vasos de vísceras da XXVI dinastia (Época
Baixa), um tempo de retorno a formas do passado, que ficou
bem patenteado na arte com um curioso processo arcaizante
de imitar velhas iconografias, como se vê nas quatro tampas
que já não representam cabeças de animais, são humanas.
A partir da XIX dinastia, as tampas dos quatro vasos aptos a
guardar as vísceras do defunto (fígado, pulmões, estômago e
intestinos) exibiam cabeças diferentes que representavam os
quatro filhos do deus Hórus: Imseti (a quem a egiptóloga, já
reformada, Helena Trindade Lopes, chama «Emesti»), Hapi,
Duamutef (a quem ela chama «Duemantef») e Kebehsenuef
(designado por «Quesenof»), em desmazelada deturpação.
Cada um dos quatro filhos do deus Hórus tinha a sua função,
eivada de ampla profilaxia tanatófila para bem dos defuntos,
podendo ser de alabastro, calcário, arenito e até de madeira:
Imseti, com cabeça humana, protegia o fígado (com Ísis)
Hapi, cabeça de babuíno, protegia os pulmões (com Néftis)
Duamutef, com cabeça de canídeo, o estômago (com Neit)
Kebehsenuef, cabeça de falcão, os intestinos (com Serket)
No entanto, o egiptólogo brasileiro Ronaldo Gurgel Pereira,
que é docente na Universidade Nova de Lisboa (FCSH), diz
que os órgãos guardados nos quatro vasos (que são vasos de
vísceras e não vasos canópicos) incluíam o coração, o que é
um erro crasso - todavia, em caso de dúvida sempre se pode
perguntar aos alunos que eles logo responderão que de facto
o coração do defunto não era colocado nos vasos viscerais.
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